Nizam
Fonte: Yarmuk AD 636: The Muslim conquest of Syria


Representação do século XIV da Batalha de Yarmouk feita por um artista catalão.

A Batalha de Yarmouk foi um grande embate entre o exército do Império Bizantino e as forças do Califado Rashidun. A batalha durou seis dias durante o mês de agosto de 636. Ela se concentrou nas proximidades do rio Yarmouk. A batalha culminou no fim do domínio bizantino sobre a Síria. Ela é considerada por diversos autores, historiadores e outros como uma das batalhas mais decisivas da história da militar, marcando a primeira onda de uma série de conquistas militares e territoriais islâmicas após a morte do Profeta Muhammad, anunciando o rápido avanço do Islam na região do Levante.

Os muçulmanos já vinham avançando dentro do território bizantino há algum tempo. Para impedir que tomassem mais territórios e até tentar retomá-los, o imperador bizantino, Heráclio, enviou uma grande força expedicionária para o Levante em maio de 636. Conforme os bizantinos se aproximavam, os muçulmanos fizeram uma retirada tática da Síria e reagruparam suas forças nas planícies de Yarmouk, próximo da Península Arábica, onde foram reforçados e se tornaram capazes de superar o exército bizantino em número. Esta batalha foi a maior vitória de Khalid ibn al-Walid, cimentando sua reputação como um dos maiores estrategistas e comandantes de cavalaria da história.

Após conflitos internos, conhecidos como Guerras de Apostásia, terem se resolvido, o califa Abu Bakr iniciou uma série de campanhas de conquista em regiões vizinhas à Arábia, começando com o Iraque, para onde enviou seu general mais brilhante, Khalid ibn al-Walid. Eventualmente, o Iraque foi conquistado após batalhas bem sucedidas contra os persas. Abu Bakr se sentiu confiante e enviou Khalid para a Síria. 

Na Síria, após algumas vitórias, ficou claro que as forças muçulmanas eram diminutas para conseguirem aguentar a resposta bizantina. Assim, foram chamados reforços, culminando na chegada de Khalid. Em setembro de 634, a cidade de Damasco foi conquistada pelo Califado, bem como algumas partes da Palestina.

Após a morte de Abu Bakr, em 634, seu sucessor, Omar, decidiu continuar com a expansão territorial do Califado na Síria, dessa vez sob a liderança de Abu Ubaidah.

Heráclio se preparava para campanhas de reconquista das regiões perdidas para os muçulmanos. O imperador bizantino se aliou a Yazdegerd, o imperador persa, que lhe ofereceu sua filha (ou neta) em casamento, firmando a aliança.

Em maio de 636, os bizantinos iniciaram sua ofensiva no Levante. Entretanto, Yazdegerd foi incapaz de coordenar a manobra para apoiar seu aliado, provavelmente pelo desgaste de seu governo.


Região de Yarmouk atualmente. (Wikimedia - Mohammad Adil)

As forças bizantinas consistiam em homens eslavos, francos, georgianos, armênios e árabes cristãos, divididos em seis contingentes. Os muçulmanos estavam divididos em quatro grupos: um sob a liderança de Amr ibn al-As al-Sahmi na Palestina, uma sob Shurahbil ibn Hasana na Jordânia, um sob Yazid ibn Abu Sufyan na região de Damasco-Cesareia e outro sob Abu Ubaida e Khalid em Emessa.

Os muçulmanos ficaram sabendo dos preparativos de Heráclio através de prisioneiros bizantinos, o que alertou Khalid. Então, foi convocado um conselho de guerra no qual Khalid aconselhou Abu Ubaidah a trazer suas tropas de volta e que se concentrassem num corpo único. Abu Ubaidah ordenou que as tropas se concentrassem numa planície próxima a Jabiyah, região cujo controle facilitava a chegada de reforços da Arábia. Assim, teriam um exército capaz de enfrentar os bizantinos. Em caso de retirada, a posição era igualmente vantajosa: estavam próximos da fortaleza de Najd. Também houve instruções para que se devolvesse a jizyah paga pelos moradores das cidades conquistadas. 

Uma vez concentrados em Jabiyah, entretanto, os muçulmanos foram alvo de constantes incursões gassânidas, um povo árabe aliado aos bizantinos. Khalid aconselhou que as forças fossem colocadas e acampadas a leste da planície de Yarmouk, um local privilegiado do ponto de vista defensivo, onde as duas forças viriam a se enfrentar.

Heráclio enviou dois homens para negociar a paz com os muçulmanos, exortando aos seus generais que não houvesse confronto até que todas as opções diplomáticas fossem esgotadas, provavelmente porque os persas não estavam prontos para uma ofensiva no Iraque. As negociações atrasaram a batalha em cerca de um mês.

Omar ordenou que Saad ibn Abi Waqqas entrasse em negociações com os persas, enviando emissários para o imperador persa e seu comandante. Enquanto isso, enviou reforços, cerca de seis mil homens, em sua maioria do Iêmen, para reforçar Khalid. Dentre esses homens, haviam cerca de mil sahabas, dentre os quais, cem deles, eram veteranos da Batalha de Badr, incluindo cidadãos notórios como Zubayr ibn al-Awwam, Abu Sufyan e sua esposa, Hind bint Utbah.

Outros sahabas distintos estavam presentes. Said ibn Zyad, Fadl ibn Abbas, Abdul Rahman ibn Abu Bakr (filho de Abu Bakr), Abdullah ibn Umar (filho de Omar), Aban ibn Uthman (filho de Uthman), Abdul Rahman ibn Khalid (filho de Khalid), Abdullah ibn Jafar (sobrinho de Ali), Ammar ibn Yasir, Miqdad ibn Aswad, Abu Dharr al-Ghifari, Malik al-Ashtar, Abu Ayyub al-Ansari, Qays ibn Saad, Hudhayfah ibn al-Yaman, Ubada ibn as-Samit, Hisham ibn al-Aas, Abu Huraira e Ikrimah ibn Abi Jahl. Como se tratava de uma milícia, a idade dos soldados variava de 20 anos (no caso do filho de Khalid) até os 70 anos (no caso de Ammar).

Objetivando derrotar os bizantinos, Omar usou as melhores tropas disponíveis contra eles. O fluxo contínuo de reforços chegando no campo de batalha preocupou os bizantinos. Temendo que os muçulmanos crescessem cada vez mais em números, resolveram adiantar o ataque. Os reforços enviados a Yarmouk chegavam em pequenos grupos, dando a impressão de que se tratava de um fluxo contínuo, desmoralizando os bizantinos, compelindo-os a atacar. A mesma tática foi usada posteriormente na Batalha de Qadisiyah, no Iraque.

A batalha, que durou seis dias, viu o que parecia ser um sucesso bizantino nos primeiros dias, inclusive com alguns homens muçulmanos tentando fugir da batalha. Esses homens foram recebidos pelas muçulmanas, ferozes e inconformadas com a situação. Elas desarmaram suas tendas e pegaram as estacas que as prendiam, ameaçando os homens, exortando-os a voltar para a batalha, inclusive entoando cânticos para isso. O resultado foi que isso ferveu o sangue dos homens, que voltaram para o campo de batalha.

Na batalha, uma das perdas mais significativas foi a de Ikrimah, amigo de infância de Khalid, que foi mortalmente ferido. Muitos soldados perderam seus olhos por flechas bizantinas, inclusive o distinto Abu Sufyan.

Muitos generais bizantinos morreram na batalha, que tomou outro rumo e se passou a ser favorável aos muçulmanos. Outros, fugiram, mas morreram em confrontos que se seguiram imediatamente após a batalha. Khalid adentrou em Damasco e foi recebido pela população local, assim, recapturando a cidade para o Califado.

Heráclio partiu da Síria, voltando para Constantinopla, onde se concentrou em organizar suas forças na Anatólia e no Egito. A Armênia bizantina foi perdida para os muçulmanos em 639 e o Egito foi conquistado em 642, liderados por Amr ibn al-Aas, que esteve em Yarmouk.

O autor George Nafziger diz que apesar de pouco conhecida, a Batalha de Yarmouk foi uma das mais decisivas da história humana. Se Heráclio prevalecesse, o mundo moderno seria tão diferente quanto irreconhecível por nós.

Referências:

Walton, Mark W (2003), Islam at war, Greenwood Publishing Group, ISBN 0-275-98101-0

Nicolle, David (1994), Yarmuk 636 A.D.: The Muslim Conquest of Syria, Osprey Publishing, ISBN 1-85532-414-8

Luttwak, Edward N (2009), The Grand Strategy of the Byzantine Empire, Harvard University Press, ISBN 978-0-674-03519-5

Akram, A.I (2004), The Sword of Allah: Khalid bin al-Waleed – His Life and Campaigns, third edition, ISBN 0-19-597714-9

Runciman, Steven (1987), A History of the Crusades: The First Crusade (second ed.), Penguin Books: London, ISBN 978-0-521-34770-9

Al-Waqidi, Abu Abdullah Muhammad Ibn Umar (8th century), Fatuh al Sham (Conquest of Syria)

Al-Baladhuri, Ahmad ibn Yahya (9th century), Kitab Futuh al-Buldan

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